Há 114 anos, despenhava-se sobre Taquari uma avalanche de gafanhotos

Um grupo de rapazes invadiu o jardim da praça São José e começou a luta contra os invasores

Nuvem que paira atualmente sobre a Argentina ameaça chegar ao Brasil
Foto: Reprodução

No momento em que o Rio Grande do Sul se vê às voltas com a ameaça da chegada dos gafanhotos que pairam no céu argentino, formando extensa nuvem, “O Taquaryense” relembra a visita indesejada dos insetos recebida por Taquari em 13 de maio de 1906.

Em matéria intitulada “Os gafanhotos”, o jornal registrou em suas páginas, na edição do dia 19 do mesmo mês, a invasão dos “terríveis destruidores”.

Eis o texto publicado na segunda página daquela edição:

A nossa cidade foi, domingo passado, visitada pela praga de gafanhotos que há muito assola o território rio-grandense.

Era pouco mais de meio-dia quando foi dado o sinal de alarme pelo aparecimento da terrível vanguarda do enormíssimo, do incalculável exército destruidor que se aproximava com uma rapidez digna de melhor causa. Instantes depois, começou a chegar o grosso da espessa nuvem, que trazia o rumo do norte.

A primeira impressão recebida por todos, ao ver a enorme avalanche que se despenhava sobre a cidade, foi de inteiro desânimo. Um grupo de rapazes, porém, deu o exemplo da reação, invadindo o jardim da praça São José e começando a luta contra os invasores.

O exemplo foi seguido, e dentro em poucos segundos, de todos os pontos da cidade, ecoava pelos ares um rumor capaz de afugentar todos os diabos que saíssem do Inferno para atemorizar os cristãos…

Ao ribombar dos tiros das comblains, das armas de caça, dos revólveres e das pistolas, unia-se o estardalhaço ensurdecedor das latas velhas a gemerem sob a pressão nervosa dos braços da rapaziada… e até dos cidadãos circunspectos, que afrontavam o que pudesse haver de ridículo no interesse do bem comum, ameaçado pelos invasores.

A banda de música, que ensaiava na ocasião, saindo a percorrer as ruas, e os sinos da Matriz, repicando prolongadamente como se festejassem acontecimento grato à alma popular, contribuíram muito para o triunfo popular na luta contra os gafanhotos!

Pousando aqui, para voarem logo mais para diante acossados pelo rumor infernal com que eram recebidos, os gafanhotos não tiveram outro remédio senão abandonar o intento de apossarem-se da cidade, e, em voo festejado a toque de latas e tiros, lá se foram eles, rumo de sudeste, atacar outras praças.

A nuvem dos terríveis destruidores foi calculada, aproximadamente, em quatro léguas de extensão, sob meia de largura, e levou duas horas a passar sobre a cidade.

Não fossem as providências tomadas pela população, e toda essa terrível avalanche teria aqui pousado, conforme tentou, e destruído jardins, arvoredos, hortas e toda a vegetação.

Parte da nuvem acampou no Porto Grande, duas léguas abaixo desta cidade, de onde só terça-feira levantou acampamento, depois de devastar o local em que esteve.

Segundo informam-nos, há ainda para o lado das colônias enormíssima quantidade de gafanhotos, que ainda podem visitar-nos, visto que eles estão procurando o rumo desta cidade em direção a sul e sudeste.

Preparemo-nos, pois, para a continuação da luta do dia 13 de maio.

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