Pelos Cinco Continentes

“Não houve aqui a discussão que vejo no Brasil”, relata taquariense que vive na França

Eduardo Kern de Castro conta que discurso do governo é forte no sentido de manter as pessoas em casa

Eduardo Kern de Castro conta que discurso do governo é forte no sentido de manter as pessoas em casa

Eduardo, a esposa e o filho de três anos
Foto: Arquivo Pessoal

Ele chegou à França em março de 2018, após ser transferido pela empresa em que trabalhava no Brasil. A 35 quilômetros de Paris, na cidade de Verneuil-sur-Seine, fixou residência. Ali, desde então, vive ao lado da esposa, com quem tem um filho de três anos.

Eduardo Kern de Castro, 40, é engenheiro. Natural de Taquari, aqui passou toda a infância e o início da adolescência. Aos 14 anos, mudou-se para Porto Alegre, onde completou o segundo grau. À terra natal retorna uma vez por ano para rever os amigos e os parentes.

A seguir, em mais um depoimento da série “Pelos Cinco Continentes”, Eduardo conta como vem sendo para ele e a família encarar a pandemia do novo coronavírus (covid-19) em solo francês.

“O único motivo para sair de casa é a ida ao supermercado”

Aqui na França, o confinamento começou em 17 de março, tendo sido anunciado em rede nacional pelo presidente na noite do dia 14 do mesmo mês. As regras do confinamento foram amplamente divulgadas, com multa para quem estivesse na rua sem alguma das justificativas listadas pelo governo. Foi criado um documento a ser preenchido a cada saída de casa. Nesse documento, além de nome, endereço, data e hora, deve ser selecionado o motivo da saída entre as opções dadas.

Com o início do confinamento, veio também a ordem para fechar todo o comércio não essencial, assim como todos os estabelecimentos de ensino. O comércio, de forma geral, está fechado. Porém, alguns grandes magazines trabalham com venda pela internet e entrega em casa. Restaurantes podem fazer delivery. Supermercados têm limite de clientes por metro quadrado. Então, é comum ter que aguardar um pouco para entrar.

O discurso do governo é único e bastante forte no sentido de manter as pessoas em casa. Não houve aqui a discussão que vejo no Brasil sobre a necessidade/eficácia da quarentena. Isso talvez pelo fato de a quarentena ter começado quando já havia mais de quatro mil casos e o sistema de saúde já mostrava que algo deveria ser feito. Mesmo assim, nas grandes cidades, somente depois que as multas começaram a ser aplicadas é que a movimentação nas ruas diminuiu de fato.

A empresa na qual trabalho fechou temporariamente o escritório e a planta. Os funcionários estão trabalhando de casa (home office) ou estão em layoff (suspensão temporária do contrato). A escola do meu filho e curso da minha esposa também foram fechados. O único motivo para sair de casa é a ida ao supermercado. É permitida também saída para uma hora de atividade física por dia, desde que sozinho, no máximo a um quilômetro de casa e com o citado documento de autorização preenchido e assinado. A escola do meu filho envia toda semana as atividades a serem desenvolvidas. Como ele está no maternal, são atividades lúdicas.

O sistema de saúde teve sobrecarga, e diversos hospitais de campanha foram construídos no país. Alguns trens de alta velocidade foram adaptados para levar pacientes de uma região para outra, de forma a utilizar a capacidade hospitalar disponível em regiões menos afetadas pela epidemia.

A população tem um grande reconhecimento pelos profissionais da saúde. Em muitas casas, há cartazes de apoio, e todos os dias, às 20h, as pessoas vão às janelas/sacadas para aplaudir e agradecer a esses profissionais.

Com relação à economia, diversas ações foram lançadas na tentativa de reduzir o impacto da pandemia. Para as empresas, existe um dispositivo chamado “chômage partiel”, que é a suspensão temporária do contrato, na qual o empregado fica em casa recebendo 80% do seu salário, sendo a metade paga pelo governo. A maioria das empresas está utilizando esse dispositivo, que é válido até 1º de junho, podendo ser prorrogado. Diversos impostos tiveram a data de pagamento postergada.

Sobre os números da epidemia, a França tem atualmente mais de 170 mil casos e 25 mil mortes. São números altos, que a colocam na quinta posição em número de casos no mundo. Entretanto, assim como em outros países da Europa, nas últimas duas semanas, observou-se importante redução no número de novos casos por dia (chegou a oito mil novos casos por dia no pico, agora menos de mil por dia) e de pacientes em UTI (o total simultâneo foi de 7,5 mil no pico, agora são três mil, baixando em torno de 200 por dia).

Com esses números mostrando claramente que o pico ficou para trás, o governo anunciou recentemente o fim do confinamento para 11 de maio. A abertura será lenta e gradual. As escolas e o comércio retornarão com regras de distanciamento e higiene. O uso de máscaras será obrigatório no transporte público. Restaurantes permanecerão fechados, eventos com público seguirão proibidos, e empresas deverão manter funcionários em home office quando possível. São bastante repetidas as frases “Vamos reabrir, mas não será como antes” e “Não existe previsão para uma volta total à normalidade”.

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