Aos 58 anos, morre professora Denise Machado Lopes

Educadora trabalhava na Apae havia três décadas

Denise lecionava na Escola de Educação Especial São Rapahel | Foto: Anna Precht/Arquivo

Morreu na noite de ontem, 15, por volta das 23h30, a professora Denise Machado Lopes, após sofrer um infarto. Nascida em 9 de outubro de 1962, tinha 58 anos, dos quais 32 dedicados à Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae).

Denise lecionava na Escola de Educação Especial São Raphael. Atualmente, estava em licença-prêmio, aguardando a aposentadoria.

Entrevistada por “O Taquaryense” no ano passado, por ocasião do cinquentenário da Apae, ela falou não apenas sobre o trabalho em sala de aula, como também a respeito de pesquisas e entrevistas que vinha fazendo com ex-professoras para contar a história da entidade.

Além disso, Denise compartilhou memórias, aprendizados e ensinamentos acerca da educação inclusiva e de sua importância na comunidade. Comentou também a expectativa da aposentadoria.

O velório foi realizado na Câmara de Vereadores, e o sepultamento ocorreu às 17h desta segunda-feira, no cemitério municipal.

A seguir, relembre a entrevista concedida por ela a “O Taquaryense” em novembro de 2019.

Considerando as pesquisas que você tem feito, o que mais lhe chamou a atenção?

Toda a escola está trabalhando agora com o projeto “Eu Faço Parte desta História”. A partir dele, vamos conhecendo fatos que marcaram a trajetória da instituição. Estamos resgatando essa história para buscar a identidade da gente. Fundada pelo psicólogo e advogado Leopoldo Leães Pinho, a Apae começou no antigo Amparo [hoje Lar São José], indo depois para uma casa próxima à Praça Dom Pedro I, em frente ao mercado Hirt, para só então chegar aonde está hoje. Muita gente não sabe disso, por exemplo. A primeira professora da escola foi Maria Edília, e ela contou que Leopoldo participava de um grupo de estudos de antroposofia [doutrina filosófica e mística fundada pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner], em Porto Alegre, e passou a trabalhar euritmia terapêutica com as pessoas assistidas na Apae, que eram em torno de 10 à época.

Qual o trabalho desenvolvido na escola São Raphael?

A Apae oferece atendimentos clínicos com profissionais das áreas de psicologia, fisioterapia, fonoaudiologia, assistência social e estimulação precoce. Cabe à escola a parte pedagógica. Hoje, contamos com cerca de 60 alunos. Pela manhã, temos o EJA, com pessoas de 15 a 62 anos. À tarde, a alfabetização, com os menores de 15 anos. Aqui não é um depósito de pessoas deficientes, como alguns ainda pensam. A escola ensina, constrói conhecimento, tem um porquê. Muito mais do que a ler e escrever, nosso objetivo é ensinar para a vida, respeitando as deficiências de cada um, para que possam se determinar e ter autonomia. Ver nossos alunos bem é nossa realização.

Como você vê o tema da inclusão nos dias de hoje?

Penso que tem evoluído positivamente nos últimos tempos. Ocorreu uma mudança de olhar: da pena para as potencialidades. Ou seja, antes se trabalhava a deficiência, hoje o que a pessoa oferece de bom. Mudando o olhar, muda tudo. Acreditamos que todos têm uma habilidade que precisa ser explorada, para que aquilo eleve sua autoestima, eliminado essa ideia de pena. Eles têm potencial, e isso deve estar em evidência. Atualmente, também temos à nossa disposição recursos muito importantes, como equipamentos eletrônicos, toda essa tecnologia. Há uma evolução positiva, tanto de visão quanto de estrutura. E tudo vem a somar para o bem do aluno.

Como são seus alunos?

Antes de deficientes, eles são humanos. São solidários, preocupados, carinhosos. A gente cresce com eles. Aprende todos os dias, e é um aprendizado de vida. Queremos que eles sejam felizes, dentro de seu tempo e de seus espaços. E eles são felizes, mesmo com todas as dificuldades.

De que maneira a família deve agir para auxiliar no desenvolvimento deles?

A família tem que caminhar junto. Encarar a situação. Fazer esse luto no começo, passar pela fase da negação. Precisa haver esse tempo para se organizar. Aquela família que superprotege vai ficar na mesma, não vai evoluir. É preciso buscar ajuda.

Qual seu sentimento diante da iminente aposentadoria?

De muita alegria e dever cumprido. A Apae completa 50 anos, e eu estou lá há mais de 30. Esse trabalho exige muito comprometimento, entrega, disposição. Minha parte eu fiz, consciência tranquila eu tenho, agora vou descansar. A palavra que resume tudo é gratidão.

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