Menino do Rincão controla doença com medicamento à base de cannabis

Anvisa aprovou recentemente a venda do produto em farmácias

Dudu Borba usa extrato da planta há 40 dias, e convulsões reduziram | Foto: Arquivo Pessoal

No início deste mês, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou novas regras para o registro de produtos à base de cannabis para fins medicinais no Brasil. Hoje, quem faz tratamento com óleos e extratos à base de canabidiol, substância encontrada na cannabis e conhecida por seus efeitos terapêuticos, precisa do aval da Anvisa para importar os produtos a um alto custo. Para se ter uma ideia, o único medicamento à base de cannabis aprovado no país, para esclerose múltipla, custa cerca de R$ 2 mil.

Em Taquari, uma família do Rincão São José, com prescrição e orientação de uma neurologista de Porto Alegre, encaminhou toda a documentação exigida pela Anvisa, a fim de receber a autorização para importar o medicamento à base de canabidiol. Aos 12 anos, Dudu Borba estava tendo crises convulsivas com frequência cada vez maior e, depois disso, perdia alguma conquista, como sons, controle da bexiga e equilíbrio. “Os exames mostram que as convulsões afetam a região da fala e do equilíbrio. Convulsionando, ele sempre perde alguma coisa, perde qualidade de vida”, comenta a mãe do menino, Lisi Borba.

Há cerca de 40 dias, Dudu utiliza o produto, e a melhora, segundo a mãe, é significativa. Participando de grupos de pessoas com deficiência, ela vinha pesquisando sobre o tema há mais de um ano. As convulsões do garoto são sutis, como se fossem espasmos. Não fosse a observação atenta dos pais e do irmão mais novo, Felipe, dificilmente seriam identificadas. Apesar disso, o caso dele não é leve. A convulsão fez seu quadro evoluir de epilepsia para síndrome de Lennox-Gastaut (síndrome epilética pediátrica grave).

Esse diagnóstico se soma a muitos outros que surgiram desde o nascimento, prematuro, aos sete meses. Com 10 dias de UTI, ele contraiu meningite bacteriana. Depois de um mês, teve hidrocefalia, que desencadeou paralisia cerebral e epilepsia. “Foram quatro meses na UTI, 16 cirurgias na cabeça. Outras três foram feitas depois. Hoje, ele tem uma válvula na cabeça e, há três anos, não faz nenhuma cirurgia”, relata Lisi.

Ela e o marido têm arcado com as despesas decorrentes da compra do medicamento, que custa em torno de R$ 700 (a dosagem necessária está em dois frascos mensais). Indagada se teme por danos futuros ao filho em razão do uso do medicamento à base de canabidiol, Lisi é objetiva: “Toda medicação causa danos futuros, especialmente anticonvulsivos. Então, por que não usar um que tem dado resultados tão positivos?”. Quanto ao preconceito em torno do assunto, ela pede empatia. “E se fosse teu filho? Quase tudo tem preconceito, a maioria das pessoas teria que sentir na pele para entender o que a gente passa.”

“Não causa dependência”

Conforme a neurologista Natália Paczko, o canabidiol está indicado no tratamento da epilepsia refratária com resultados já comprovados por trabalhos científicos. “O uso para transtornos de comportamento como o autismo ainda está em estudo e carece de comprovação científica. Poucos médicos prescrevem por falta de conhecimento e experiência com o uso da medicação.”

A resposta à medicação é variável. “Alguns pacientes melhoram muito e outros parcialmente.” O canabidiol, escalarece Natália, não causa dependência. “São vários compostos diferentes, e aqueles utilizados na medicação são seguros. Não há efeitos colaterais graves relatados.”

Saiba mais

A regulamentação aprovada pela Anvisa, comemorada pelas famílias que já utilizam os medicamentos ou por aquelas que aguardam autorização, permite que empresas obtenham aval para a venda dos produtos em farmácias. Isso significa dizer que o acesso aos pacientes pode ser agilizado.

Conforme a agência, as principais doenças apontadas nos pedidos de importação de canabidiol são epilepsia, autismo, dor crônica, doença de Parkinson e neoplasia maligna. É importante salientar que o medicamento será vendido somente sob prescrição médica, com retenção da receita e em farmácias e drogarias.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.