“Mais do que a ler e escrever, nosso objetivo é ensinar para a vida”

Denise Machado Lopes fala sobre seus 32 anos de Apae

Este é o último ano de Denise em sala de aula | Foto: Anna Precht

“Lá se vão 50 anos de uma inclusão de amor.” Esse trecho, que define a atuação da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Taquari, faz parte do hino que reverencia as cinco décadas da instituição, completadas na quarta-feira, 20. Ele foi escrito pela professora Denise Machado Lopes.

Com 32 anos de atuação na Apae, Denise leciona na Escola de Educação Especial São Raphael. Com o entusiasmo de quem é apaixonado pelo que faz, Denise fala, nesta entrevista, sobre o trabalho realizado junto a seus alunos, com os quais diz aprender diariamente.

De acordo com ela, sua missão profissional é valorizar e desenvolver as potencialidades das pessoas com deficiência. Nesse sentido, a Apae procura oferecer condições de vida digna aos assistidos, possibilitando sua inclusão em todos os âmbitos da sociedade.

Nos últimos tempos, a atuação de Denise tem ido além da sala de aula. A professora vem fazendo pesquisas e entrevistas com ex-professoras, a fim de conhecer e poder contar melhor a história da Apae. Certa de que fez sua parte e de olho na aposentadoria, que deve ocorrer no início de 2020, Denise compartilha, a seguir, memórias, aprendizados e ensinamentos acerca da educação inclusiva e de sua importância na comunidade.

Considerando as pesquisas que você tem feito, o que mais lhe chamou a atenção?

Toda a escola está trabalhando agora com o projeto “Eu Faço Parte desta História”. A partir dele, vamos conhecendo fatos que marcaram a trajetória da instituição. Estamos resgatando essa história para buscar a identidade da gente. Fundada pelo psicólogo e advogado Leopoldo Leães Pinho, a Apae começou no antigo Amparo [hoje Lar São José], indo depois para uma casa próxima à Praça Dom Pedro I, em frente ao mercado Hirt, para só então chegar aonde está hoje. Muita gente não sabe disso, por exemplo. A primeira professora da escola foi Maria Edília, e ela contou que Leopoldo participava de um grupo de estudos de antroposofia [doutrina filosófica e mística fundada pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner], em Porto Alegre, e passou a trabalhar euritmia terapêutica com as pessoas assistidas na Apae, que eram em torno de 10 à época.

Qual o trabalho desenvolvido na escola São Raphael?

A Apae oferece atendimentos clínicos com profissionais das áreas de psicologia, fisioterapia, fonoaudiologia, assistência social e estimulação precoce. Cabe à escola a parte pedagógica. Hoje, contamos com cerca de 60 alunos. Pela manhã, temos o EJA, com pessoas de 15 a 62 anos. À tarde, a alfabetização, com os menores de 15 anos. Aqui não é um depósito de pessoas deficientes, como alguns ainda pensam. A escola ensina, constrói conhecimento, tem um porquê. Muito mais do que a ler e escrever, nosso objetivo é ensinar para a vida, respeitando as deficiências de cada um, para que possam se determinar e ter autonomia. Ver nossos alunos bem é nossa realização.

Como você vê o tema da inclusão nos dias de hoje?

Penso que tem evoluído positivamente nos últimos tempos. Ocorreu uma mudança de olhar: da pena para as potencialidades. Ou seja, antes se trabalhava a deficiência, hoje o que a pessoa oferece de bom. Mudando o olhar, muda tudo. Acreditamos que todos têm uma habilidade que precisa ser explorada, para que aquilo eleve sua autoestima, eliminado essa ideia de pena. Eles têm potencial, e isso deve estar em evidência. Atualmente, também temos à nossa disposição recursos muito importantes, como equipamentos eletrônicos, toda essa tecnologia. Há uma evolução positiva, tanto de visão quanto de estrutura. E tudo vem a somar para o bem do aluno.

Como são seus alunos?

Antes de deficientes, eles são humanos. São solidários, preocupados, carinhosos. A gente cresce com eles. Aprende todos os dias, e é um aprendizado de vida. Queremos que eles sejam felizes, dentro de seu tempo e de seus espaços. E eles são felizes, mesmo com todas as dificuldades.

De que maneira a família deve agir para auxiliar no desenvolvimento deles?

A família tem que caminhar junto. Encarar a situação. Fazer esse luto no começo, passar pela fase da negação. Precisa haver esse tempo para se organizar. Aquela família que superprotege vai ficar na mesma, não vai evoluir. É preciso buscar ajuda.

Qual seu sentimento diante da iminente aposentadoria?

De muita alegria e dever cumprido. A Apae completa 50 anos, e eu estou lá há mais de 30. Esse trabalho exige muito comprometimento, entrega, disposição. Minha parte eu fiz, consciência tranquila eu tenho, agora vou descansar. A palavra que resume tudo é gratidão.

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