Aos 90 anos, Wanda Saraiva recorda infância vivida nas oficinas de “O Taquaryense”

Neta do fundador do jornal acompanhava o pai, Gontran Saraiva, nas lides tipográficas

Wanda não abre mão do hábito ler o semanário nas manhãs de sábado, acomodada na cadeira de balanço que herdou do pai | Foto: Pedro Harry Dias Flores

Desde sua fundação, no final do século XIX, “O Taquaryense” está presente na vida da famíla Saraiva. Tudo começou com Albertino, o fundador. Depois, os filhos assumiram e os netos continuaram a obra do avô. Escrevendo, compondo, dobrando ou entregando o jornal, todos se envolveram de alguma forma com o semanário.

Com Wanda Saraiva Kern, filha de Gontran e Enedina Saraiva, não foi diferente. Em entrevista a “O Taquaryense”, ela relembra, aos 90 anos, momentos marcantes que viveu junto ao jornal, desde a infância ao lado do pai na tipografia até os dias que correm.

Quais as lembranças mais remotas que você guarda de “O Taquaryense”?

O pai era notário. Quando saía do cartório, ia para lá. Trabalhavam na tipografia ele, o Pery e o Laurindo Paraná. Então, eu também ia. Eles montavam o jornal, e eu sentava numa cadeirinha e ficava ali, mexendo, para dizer que estava trabalhando. Assim, aonde o pai ia, eu ia junto. Quando terminava o jornal, eu achava muito bonito. E o pai ia lavar. A oficina ficava bem no alto. Tinha uma escada, uma áreazinha e a casa das máquinas. O pai limpava a chapa com gasolina. Esfregava com uma escova com cerda preta. Esfregava, esfregava, esfregava. Achava aquilo muito bonito. Nunca esqueci. Devia ter uns quatro ou cinco anos.

À medida que foi crescendo, você continuou acompanhando o dia a dia do semanário?

Eu vivia na tipografa. A casa era da tia Dalila e do tio Mário. E eu me lembro que no aniversário do jornal, dia 31 de julho, a tia sempre fazia doce. Aí a gente foi crescendo, e ela nos ensinou a dobrar o jornal. Era na cozinha que se dobrava. Nós aprendemos assim, pontinha com pontinha, não podia sair nada fora do lugar. Era a Norma, a Maria da tia Olívia, a Zilá. Depois, a mãe, a tia Olívia e a tia Otávia colavam os sobrescritos. Isso às sextas-feiras. Aos sábados, os netos faziam a entrega.

Todos os netos entregaram o jornal?

Quase todos os netos homens. Eu lembro que tinha uma capa bem grossa que eles usavam para entregar. O Dante passou para o Paulo, o Paulo passou para o Beto. Eles é que entregavam o jornal. Chovesse ou não chovesse, geasse ou não geasse, eles entregavam o jornal todos os sábados, antes de ir para o colégio, porque naquela época também íamos ao colégio nos sábados. O Jorge eu não sei se chegou a entregar. Mas o Hélio entregou, o Pery entregou. A mamãe sempre contava que o tio Nilo, que era o mais moço, foi entregar o jornal lá na Praia e viu uma pata com um monte de patinhos, pegou um dos filhotes e levou para casa. Foi o que bastou para o vovô, que era muito sério, lhe passar uma carraspana: “Vai levar para o mesmo lugar de onde tiraste”. E ele teve que ir até lá devolver o patinho (risos).

Você conheceu Albertino Saraiva?

Não. Ele morreu em 1928. A vó Joana também não conheci. Ela faleceu no mesmo ano em que eu nasci, em 1929. O pai inclusive queria que eu tivesse o nome dela. Nossa infância foi toda ali, na casa do tio Mário e da tia Dalila, que era a casa de nossos avós. O pai trabalhou no jornal com o tio Mário até se ver forçado a sair, porque tinha o cartório para atender. A empresa era Saraiva & Irmão. Mais tarde, a tipografia saiu da casa do tio Mário. Foi quando houve a campanha para a construção da sede onde até hoje está o jornal, sob a liderança do dr. João Teixeira, juntamente com o Nardy, o tio Plínio e o Pery.

Você já era adulta. “O Taquaryense” ainda se fazia presente em sua vida?

Eu já não frequentava mais o jornal nesse período. Acompanhava à distância. Mas eu lembro que, depois que o pai ficou doente de uma perna, ele ainda ia à tipografia para montar e imprimir uns recibos numa máquina manual, movida por um pedal. Quando a perna doía, ele pedia para a gente tocar.

Voltemos aos anos 20. Há o famoso episódio da invasão de Higino Pereira e sua tropa durante a Revolução de 1923. Um dos alvos era o jornal. O que seu pai e seus tios contavam a respeito?

Na época, havia dois partidos, o Partido Federalista e o Partido Republicano. O vovô era republicano, castilhista. Os maragatos pertenciam ao lado oposto. Na revolução, vieram para matar a família Saraiva. Esse tal de Higino e a tropa toda invadiram Taquari para atacar o jornal, a prefeitura e a telefônica. E, por incrível que pareça, a dona Raquel Pereira, que era dos maragatos, foi quem salvou o vovô. Abriu a casa dela para que ele pudesse se esconder.

E o resto da família? A casa de Alzira Mesquita da Costa também não teria servido de esconderijo?

É possível. Eu acho que eles se espalharam no dia. Uma parte da família ficou no casarão do seu Leonel Miranda, isso a mamãe contava. Tem também a história da tia Clélia, que era pequena na época. Em meio a toda aquela correria para se esconder, quando foram passá-la para o outro lado do muro da casa, ela acabou caindo e quebrou a perna. Então, a gente se criou com aquela raiva de maragato. Quando eu fui trabalhar no cartório, o pai disse: “Tu vais ter muitos colegas maragatos”. Com o tempo, passou um pouco a raiva. Um pouco (risos).

Como você vê “O Taquaryense” hoje?

A leitura do jornal é sagrada para mim. Todos os sábados, quando o recebo, me passa um filme na cabeça. Volto à infância. Parece que estou vendo a máquina em funcionamento, ouvindo aquele barulho, sentindo o cheiro de óleo. Hoje, com alegria, acompanho essa nova fase de “O Taquaryense”. Assim é a vida. As coisas vão se inovando, mudando. O importante é manter a essência, e “O Taquaryense” tem mantido a sua, sempre fiel às origens.

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